Plano Bê: louca de primeira viagem

“A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana.

(…) ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio”.

Fernando Pessoa

roadtrip

A louca estava no meio de um quarto bagunçado tanto ou mais que seus pensamentos. Folhas de papéis se confundiam e palavras se declaravam em cada canto. Olhou em volta e viu que nunca havia se dado conta do quanto acumulava história. Fotos, amigos, cadernos que guardavam seus segredos, objetos que um dia foram importantes e que ela nunca mais teve coragem de jogar fora porque odiava a sensação de ter que deixar algo ir, de perder. Ela tinha medo de ser esquecida por isso guardava tanta coisa, carregava tanta gente. Será que isso era loucura?

Num canto, a fumaça cálida de um incenso dançava um balé sereno enquanto perfumava o ambiente e no céu tinha uma lua tão linda que ela podia ouvir aquela luz tocando as folhas lá fora. Era lindo poder perceber aquilo que ninguém nunca viu e ela se perguntou se isso é que era a loucura. E no mesmo instante se lembrou de que no juízo daqueles que caminhavam com ela, ela pertencia à categoria dos “loucos” desde sempre e para sempre, e se algum dia foi diferente não se lembrava. Ela não se lembrava de não ser louca. Não se achava louca, mas não tinha certeza sobre o que é ser sã.

Na verdade ela não sabia o que era a loucura, essa era uma questão pendente na sua vida que ela nunca resolveu completamente. É que ela preferia achar que loucura era uma coisa muito legal já que energias ruins afastam as pessoas e todos os que a chamavam de louca estavam sempre por perto. Deduziu isso por pura e simples reflexão lógica e essa dedução a deixou curiosa. Agora ela queria respostas sobre o que era e até onde podia chegar se continuasse de mãos dadas com a insanidade. Sobre quanta história poderia acumular.

Se ela estava buscando respostas é porque aceitava o título. Então ela era uma louca consciente? Será? “Não sei” era a resposta que veio à cabeça e a que mais estava presente no seu vocabulário ultimamente. Algumas coisas não têm mesmo resposta e este é o charme da loucura. Sentia cada célula do seu corpo respirando, se enchendo de ânimo e querendo viver. Ouviu um barulho. Seria a loucura chegando? Finalmente iriam se conhecer. Mas não, era apenas seu coração que pulou do peito e saiu correndo na frente pra mostrá-la que louca ou sã, o importante é viver aqui e agora. Neste tempo exatamente do jeito que ele é. Desde que descobriu que a vida é uma viagem, embarcou de mala e cuia porque ela sabe que todas as viagens valem a pena.

Pronto! Sua pendência com a loucura estava resolvida. Decidiu que não se importava de ser chamada de louca, porque cada um escolhe a maneira como vai deixar as coisas do mundo interferirem na sua vida e nos seus sonhos. E, no dicionário dela, “louco” era sinônimo de “destemido”. No dia a dia dela a sua loucura iluminava os cantos mais sombrios e tudo acabava em riso. Sua loucura só trazia energias boas. Loucos se reconhecem pelo brilho nos olhos e a vontade de viver. Só um louco entende o outro. Olhando por este lado, ela, agora, adorava a loucura.

Viver nunca foi tão bom quanto agora que ela sabia-se louca e, já que a vida é uma viagem, a partir de agora ela escolheria mais loucos como companheiros de poltrona.

Bethânia Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: Autoanálise

Imagens da semana 222 - MDig

Não sou tão linda e perfeita como a foto de perfil na rede social mostra, nem tão feia e má como a do meu RG. Não sou tão doce quanto meu sorriso, quando estou feliz, aparenta, nem tão amarga quanto meu alô num dia de mau humor. Vivo de concordâncias, tudo foi milimetricamente equilibrado para que o resultado fosse eu exatamente desse jeito. Cometo erros, muitos erros, todos os dias, mas me reinvento toda noite tentando ser melhor. Eu sou a confusão entre o bom e o mau, entre o feio e o belo, o louco e o lógico. Eu sou o encontro de forças opostas, o limite do limite e estou sempre à procura do degrau que eleva, por isso, faço lá minhas loucuras e nunca foi tão feio ser assim. O problema é que agora, algumas pessoas no mundo são tão lindas, perfeitas e meigas durante 24 horas por dia. Nunca erram, não ficam de mau humor, não se irritam nem acordam com mau hálito. São seres que praticamente transcenderam todos os limites de perfeição humana, daí, eu que sou normal, pareço tão imperfeita que dá dó… Dó deles, por não se permitirem habitar a casa da loucura um só dia. Poucos me fazem companhia aqui, mas somos felizes além da medida e é só isso o que importa.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: rótulos

rotulosEu não sou tão linda e perfeita como a foto de perfil na rede social mostra, nem tão feia e má como a do RG. Não sou tão doce quanto meu sorriso, quando feliz, aparenta, nem tão amarga quanto meu alô num dia de mau humor. Vivo de concordâncias, tudo foi milimetricamente equilibrado para que o resultado fosse eu, exatamente desse jeito. Cometo erros, muitos erros, todos os dias, mas, me reinvento toda noite tentando ser melhor. Eu sou a confusão entre o bom e o mau, entre o feio e o belo, o louco e o lógico e, que eu me lembre, nunca foi tão feio ser assim. O problema é que agora, algumas pessoas no mundo são tão lindas, perfeitas e educadas por traz de uma tela de computador. Elas nunca erram, não têm mau humor, não se irritam, não acordam com mau hálito e fazem um bem danado ao mundo ajudando milhares de criancinhas que passam fome na África ao compartilhar uma foto… (Silêncio). Pois é, esse mundo viu! Tá cheio de gente sã demais, coerente demais. Afinal o que é a loucura, se não uma desculpa que inventaram para rotular quem pensa diferente, enquanto os que se dizem sãos fazem guerras e matam pessoas?  Daí, eu que sou normal, pareço tão imperfeita que dá dó. Dó deles por não se permitirem habitar a casa da loucura um só dia. Poucos me fazem companhia aqui, mas somos felizes além da medida e é só isso o que importa!

Bethania Davies

Foto: reprodução.