Plano Bê: divagações

1Em função da demanda de curiosidade sobre quando, como e por quê escrevo meus textos, resolvi desabafar. Bom, a verdade é que nem eu mesmo sei direito, o que eu sei é que eu escrevo sempre para alguém. Sempre. Para um amor, um ex-amor, um amigo, um estranho no ponto de ônibus, e, às vezes, para mim mesmo. Cazuza me explica melhor que eu quando diz: eu escrevo para não precisar falar sozinho.

Tem coisas que só entendo depois de colocar no papel e em geral o que me inspira são as pessoas e suas escolhas. Às vezes eu exagero, e me odeio por pensar e escrever “tanto”. Como um pássaro que aprendendo a voar não sai de perto do ninho e, ao dominar a arte, voa para outros céus sem nunca voltar, minhas palavras parecem que criaram um tipo de vida própria e agora voam sozinhas quando querem.

Às vezes eu vou escrever para alguém, algo bem pessoal mesmo, e eu faço o maior esforço do mundo para parecer uma pessoa normal e nunca (nunca!), consigo.

Eu não sei! Ás vezes eu só quero que a pessoa saiba que eu gosto dela e que ela é especial, só isso. Mas quando vejo lá se foram mais de 30 linhas, o que caracteriza praticamente uma biografia ou uma declaração de amor pra quem não entende de loucos. Para mim é só um texto, meu jeito de dizer. Mas esse meu exagero poético, literário e insano sempre estraga tudo. E, acreditem, um conselho para a vida é: pelo excesso se perde muito mais fácil do que pela falta!

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: cheiro de papel

tumblr_nhx2omqbus1slfc9go1_1280Hoje eu abri um caderno vazio. Ele não era como os outros que eu tenho. Ele não tinha nenhum risco denunciando minha mão indecisa, nenhuma palavra bonita denunciando qualquer paixão remanescente, nenhuma folha amassada denunciando qualquer noite mal dormida. Ele era vazio. Pronto pra eu começar de novo, pronto pra receber minha alma. Uma alma tão valiosa em folhas presas por uma mola de metal barato. É, eu não julgo um livro pela capa porque conheço o meu livro e sei o que tem dentro dele.

Passei as folhas em branco pelos dedos sentindo o cheiro do papel onde tantas possibilidades vão se tornar realidade. Pensei em todas as palavras que vou escrever e as que vou rabiscar por cima com a caneta quando minha mão for mais rápida que meu cérebro e escrever coisas que não quero ler. Que não quero que façam parte de mim. É, eu ando tentando mandar nos meus pensamentos antes que eles me enlouqueçam.

Pensei no quanto esse caderno vai ser importante e precioso já que eu não carrego minha alma comigo, coloco ela ali. E volto sempre para ler de novo e acrescentar coisas que ficaram para trás. Uma estratégia para crescer sem se esquecer do plano original. É, eu ando tentando ser uma grande mulher.

Ali eu vou guardar os meus pedaços, fragmentos de um ser humano em construção. Um quebra cabeças que só eu sei montar. Com uma caligrafia terrível que só eu consigo decifrar. Faço de propósito caso alguém tenha a ousadia de querer descobrir quem eu sou e aonde está meu tesouro. É, eu ando cuidando melhor do meu coração.

Se eu comprei este caderno é porque ainda não escrevi tudo que precisava. Sinto que ainda tem muitos pedaços de alma esperando para serem colocados no papel. É que eu ando tentando ser melhor, sabe? Crescer, amadurecer, fazer a diferença. Não sei se vai dar certo, mas é a primeira vez que comecei um caderno pela primeira folha e isso já é um bom começo!

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: domingo insano

escrevendo

Será que alguém pode me dizer qual é a maneira correta de proceder quando alguém te deixa num domingo? Eu já odiava domingo mesmo! Domingo é uma merda!  Porque você não tem a expectativa da sexta nem o sol prometedor do sábado, nem a ressaca da segunda. Domingo é um dia inútil feito pra visitar tias, olhar fotos antigas, lembrar do passado, escrever textos apaixonados e, no meu caso, morrer de tédio. E agora, fazer o quê?

Ligar pra aquele ex que vive correndo atrás de mim? Beijar o primeiro babaca que aparecer? Conferir na minha lista de contatos se existe alguém que poderia me salvar? Chorar? Sair correndo? Tomar um litro de Vodka? Meu Deus!!! Ainda não resolvi o que vou fazer, estou pensando, mas qualquer coisa muito precipitada seria esforço demais por você. Enquanto decido, escrevo. Aproveito e coloco uma música, que não sei o nome, bem alta, mas tão alta que é pra não ouvir meus pensamentos. E finjo que sou alheia ao mundo,  finjo que flutuo enquanto a musica não acaba. Meu Deus, e quando ela acabar? O que eu faço? Quando acabar todas as músicas que tenho no iPod? Vou ter que ouvir o silêncio gritando teu nome enquanto procuro mais um milhão de melodias pra te apagar.

Como eu odeio você! Você poderia, pelo menos, ter tido a consideração de sumir numa sexta feira, né?! Tão lindo e tão letal. E eu não sei até onde vou com essa de achar que você ainda vai ligar, achar que se importa, achar que meus textos algum dia chegarão até você. Escrevo pra não enlouquecer, a única coisa que me resta é esse caderno onde posso recapitular todos os sentimentos que me causou desde o início. Daria um livro, mas não gosto de passar meus olhos pelo caderno todo e ver que uma história tão bonita terminou com a cena: eu sentada no quarto conversando com essas folhas inúteis cheias de você. Talvez não escrever nada seria a melhor escolha, mas eu me entrego demais. Eu só sei amar assim, preenchendo de amor linhas vazias e deixando-as coloridas. Para isso que servem os cadernos, não? Talvez escrever ainda seja meu melhor remédio, mesmo que hoje seja num domingo e que você nunca leia.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: pacto pessoal

1Prometi nunca mais me desmanchar em textos lindos e adoçados pra ninguém que me encante, prometi não deixar ninguém mais me encantar tanto. Prometi não ficar esperando pela atenção de ninguém. Prometi ponderar mais, observar mais e tentar não dizer a verdade tão cedo. A frase simples ‘cara, eu gosto de você’ toma proporções catastróficas quando dita a quem não tem senso de humor, nem coragem de se sentir gostado. Que se danem! Não acho ninguém mais no mundo que mereça minha sinceridade. Ás vezes tenho umas vagas sensações de paixão ao lembrar-me de alguns sorrisos e bocas que andei provando na noite por aí, mas só. Enquanto a fumaça sobe e o álcool me aquece, eu sorrio pensando: “mais um!” Eu não pago mais o preço, não fico pra ver o resultado. É só mais um desavisado, mais um menininho da mamãe que acha que entende tudo. Mais um perdido feito eu, à procura de corações pra partir. Mas aqui não! O meu não. Não mais. É só mais um, procuro me convencer enquanto dou as costas e volto pra minha realidade onde não existe ninguém pra pensar ao acordar. Nada de telefonemas a serem dados ou me preocupar se posso ser traída na próxima sexta. Nada de satisfação sobre onde estive. Nada de almoço em família no domingo, nada! E não que eu seja má, mas foi a maneira que encontrei para proteger meu coração bobo. Ele nem sabe da minha vida, não sabe a quantia de homens que saíram dela por terem medo de mulheres feito eu. Verdadeiras, intensas, vibrantes, fortes. Nem sabe o quanto eu realmente queria que tivesse dado certo com pelo menos um deles. Mas, agora chega. Continuo escrevendo textos lindos para os sorrisos que vejo nas esquinas por aí, como sempre, mas nada de sentir por alguém de novo o que eu já senti em vão tantas vezes. Ainda escrevo, e não vou parar, mas é porque inspiração quando vem não deve nunca ser desperdiçada. Porque escrever sobre amor é preciso.

Bethania Davies

Foto: reprodução.