Plano Bê: quando foi que eu cresci?

5Eu tinha prometido que não iria deixar, nunca, os enredos de adulto me afastarem da criança sonhadora que fui. Eu tinha um porto seguro, um forte construído de sorrisos fáceis, algodões doces e estrelas cadentes, para onde eu corria quando o dia a dia tentava me enlouquecer. Mas um belo dia eu perdi a trilha, os passarinhos comeram as migalhas de pão que deixei para saber voltar e nem me dei conta. Quando foi que eu cresci?

Será que foi no dia em que liguei a TV e achei mais interessante me informar sobre os problemas do mundo? Será que já tinha sido no dia que eu comprei a TV? Deveria ter ficado nos livros e me ocupado mais com achar meu próprio Guarda Roupa para Nárnia.

Quando foi que eu cresci? Será que foi naquele dia em que deixei de sorrir para uma criança na rua? Será que ele me categorizou como “adulto chato”? Seria um título pesado demais pra mim que ainda não tive coragem para admitir que a vida me endureceu um pouco.

Quando foi que eu cresci? Talvez tenha sido no dia em que não deu mais para minha mãe consertar meus erros. Foi quando eu descobri que os adultos, quando fazem algo errado, precisam ir lá e consertar. Será que foi nesse dia que eu descobri que ninguém quer ser, de fato, livre? É que com a liberdade vêm responsabilidades enormes. Ou será que foi no dia em que descobri meu próprio jeito de consertas as coisas, respirando fundo e deixando fluir.

Será que eu cresci quando comecei a deixar a opinião das pessoas mexerem com meu jeito? Tomarem as decisões por mim? Caramba! Eu tinha prometido que não ia deixar isso acontecer! Acho que cresci um pouco no dia que descobri que não sou boa em cumprir minhas próprias promessas. Talvez no dia em que resolvi parar de prometer e deixar a vida me dar o que ela quisesse.

Será que eu cresci no dia que desconfiei que Papai Noel não existe? Eu me lembro até hoje e ainda sinto a mesma raiva que senti no momento em que ouvi uma pessoa me dizer: “Papai Noel não existe”. Ou será que eu cresci quando resolvi, mesmo sabendo que o mundo está doente, acreditar no Papai Noel? Acreditar em pessoas que amam o próximo, acreditar que pode ter uma solução. Será que crescer é isso? Enxergar a realidade se desfazendo e mesmo assim ter fé na humanidade? Acho que é.

Quando foi que eu cresci de verdade? Eu não vi esse dia chegar. Não é como um aniversário com data marcada que você fica esperando e acontece. Não é como dormir e acordar diferente. Quando você percebe, você já está chato, está reclamando do som alto, está discutindo política. Quando você se dá conta, o estresse do trabalho já não deixa sua criança aparecer.

Ela te assiste de um universo paralelo por detrás de um espelho e fica com medo de se aproximar. Com vergonha de que você julgue muito bobo lembrar-se da boneca do vestido rosa, ou do balanço debaixo daquela arvore grande e bonita que você gostava. Ela gostaria muito de te fazer lembrar-se de como coisas tão simples te faziam tão feliz, mas ela tem medo de se aproximar, medo do adulto chato que você se tornou e, assim, cada dia fica mais difícil de resgatá-la.

Eu deveria crescer, eu sei. Eu já devo ter crescido, mas eu me recuso a esquecer. E admito sim que cada dia preciso fazer mais força para me encontrar com a criança que gostava de achar desenhos nas nuvens, de unicórnios e portais mágicos. Mas estamos na luta e ela sabe que eu não vou deixá-la sozinha lá naquele lugar. Que eu prometi voltar sempre para lermos uma história e fazer biscoitos com açúcar colorido. Que eu prometi deixar ela me levar sempre que a sensatez manipulada estiver me enlouquecendo.

Eu não sei quando eu cresci, eu sei é que faço um esforço danado, todos os dias, para continuar acreditando. Afinal, se eu me desligar de tudo que me fez ser o que sou hoje, o que vai me sobrar? Melhor não crescer. Melhor adoçar o coração, esperar o Papai Noel e me fascinar com as luzes de natal. São as coisas simples que trazem alegria e só sendo um pouco criança para enxergar a riqueza que há na simplicidade.

Bethania Davies

Plano Bê: segredo nos olhos

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Era um dia comum daqueles que você acorda sem expectativas. Peguei o ônibus para o trabalho ouvindo minha música e nada me tiraria daquele estado de compensação. Gosto de pensar na minha vida, e naquele dia lembrei-me de tudo que fiz na infância, na adolescência e o que faço agora. Pensei “puts, eu já errei tanto e ainda erro muito”. Eu merecia aquela paz, merecia parar tudo pra pensar, busquei justificar a minha inércia no fato de que havia transformado minha vida em uma bola de neve nos últimos meses. Além da faculdade, dos projetos, do trabalho, da coluna semanal, do livro, da música, dos ensaios, da aula de inglês e da aula de violão, eu era uma pessoa com vida social, amigos presentes e estava à procura de alguém para dividir tudo aquilo que havia me tornado. Já podia me orgulhar dos meus feitos, e eu havia mesmo exagerado tentando abraçar o mundo. Merecia tirar uns dias pra ficar mal humorada e não fazer mais nada.

Ouvi um piiiiiiiiiiiiiiiii, era minha parada. Quando levantei, querendo sair o mais rápido possível dali pra me livrar da tia que conversava ao lado o tempo todo, percebi dois olhinhos me olhando. Era um olhar fixo, limpo, despido de qualquer sentença. Parecia um rio onde a gente mergulha pra não ouvir os barulhos da alma. Silenciei meu interior, observei aquele momento em câmera lenta e decidi continuar olhando. Optei por não sorrir. Aqueles olhos aparentavam ter uns onze meses, no máximo, e uma vida inteira pela frente, pensei. Sonhos, erros, acertos, ilusões, tanta coisa vai acontecer… Na hora, tentei lembrar, mas não consegui encontrar na minha mente embaralhada lembrança de alguma vez ter olhado pra alguém assim, afinal também tive onze meses e ouvi dizer que sempre restam alguns flashes em nossa memória que podem influenciar ânimos e a personalidade na vida adulta.  Conclui que talvez nesta idade eu tenha olhado pra alguém bem cético e mal humorado, talvez não, com certeza! Isso prova porque adoro tanto colocar meus óculos escuros, hibernar no meu mau humor e fingir que não sou desse mundo.

Todas as sensações que aquelas duas bolinhas incrivelmente pretas iam me causando me acalmavam e inquietavam ao mesmo tempo.  Iam me decifrando e eu ia me sentindo despida, invadida, revirada do avesso a cada novo pensamento. Em pouco tempo eu consegui enxergar tudo muito claro. Se Deus ainda manda esses anjinhos para o mundo numa tentativa de nos fazer pensar nossa existência, então quando eles colocam as pupilas sobre nós é porque a vida não para aí.  A vida pede ação sempre, movimento sempre, força de vontade sempre. E aquela criança precisa ter um mundo girando quando começar a viver. Agora enquanto ele só observa tudo pelas duas janelinhas encantadas no colo da mãe, sou eu a responsável por fazer o mundo acontecer. Eu!

Imaginei que não tenho o direito de parar pra descansar no meio do caminho, não tenho o direito de deixar de herança uma vida estática e concordei que é sempre assim mesmo, tipo bola de neve, tudo junto e misturado acontecendo ao mesmo tempo.  Isso tudo passou em mim como um filme compassado e do lado de fora, no mundo, passou-se só dez segundos. Sai do transe como quem é sugado pra fora de um tornado e sorri, sorri bem bonito mesmo. Se for pra ele se lembrar de algo quando crescer, e isso influenciar sua vida, que seja de alguém sorrindo. Desci do ônibus e fui correndo viver.

Bethania Davies

Foto: reprodução.