Plano Bê: não desista de mim

1 (2)Eu acho que você não quer desistir, mas por via das dúvidas, resolvi te dar mais alguns motivos para ficar. Olha eu sou meio exagerada e como qualquer ser humano, imperfeita. Vou errar com você e vou sentir um profundo pesar quando isso acontecer, mas não desiste. Prometo que, por você, vou acordar todos os dias e tentar ser uma pessoa melhor. Só não desista de mim.

Eu sou tão transparente que você já percebeu, logo de cara, que eu gosto de você. Mas também consigo ser difícil de ler em algumas questões. Você vai ter que ser meio vidente em alguns momentos, mas não desistia de mim por isso, eu vou dar o meu melhor.

Não desiste. Tem muitas coisas que a gente ainda precisa fazer, eu ainda nem te contei que sou apaixonada por noites de lua cheia e que, quando estou sozinha, brinco que sou uma bailarina clássica.

Fica aqui comigo hoje, amanhã, volte para me ver na semana que vem, permaneça. Ainda não deu tempo de eu descobrir porque os meus dedos se encaixam tanto nos seus, mas tenho certeza que não é em vão, tem que ter um motivo para tanto gosto, e para esse meu sorriso brilhar tanto quando você está perto.

É tanta coisa, né? Tanto desencontro, tanto desencaixe, tanta falta de tempo, tanta distância, mas não desiste! Porque o encanto ainda é maior e mais bonito. Sei lá! É uma saudade de abraçar, um olhar que fala, uma alegria incontida, um sentir sem querer, e um querer sem tamanho. Acho que você não vai desistir, mas você é livre. Te deixo livre para escolher o melhor caminho, mas não desiste de mim, não. Não desiste da gente. Porque eu também não vou desistir.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: um dia

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Mais um fim de semana se passou e você continua curtindo sua vida. Vai lá, deita a cabeça no travesseiro confiante de que tem um coração que está sempre te esperando e que você sempre tem a escolha de voltar correndo para aquele abraço caso tudo der errado. Confiante de que têm beijos doces, chocolate quente e amor desmedido que estão a qualquer hora do dia ou da noite à sua disposição quando você se cansar desse mundo vazio.

Aproveite essa sensação de navio livre em alto mar que tem um cais seguro para voltar a procura de calmaria e paz caso a tempestade se torne intransponível.

Você se esquece de que nada esta sob o controle de ninguém. Considere algumas variáveis e entenda que não vai ser sempre assim. Um dia ela vai seguir em frente e você terá que saber lidar com isso também.

Um dia vai chegar alguém disposto a sugerir que ela troque amores platônicos por amores reais. Ela vai refletir sobre tudo que fez por você sem nenhum resultado e vai topar.

Um dia alguém vai fazê-la rir de um jeito que ela nunca sorriu para você. Você vai assistir ela se apaixonar, vai ver o coração dela descobrindo, aos poucos, que pode se livrar de você até que ela finalmente te deixe para trás sem nenhum pingo de remorso. Ela vai seguir em frente.

Os olhos dela estiveram sempre no horizonte e se encheram de fins de tarde sem te ver voltar. Mas algum dia a fechadura da porta da frente (da casa e do coração) será trocada e a nova chave estará em posse de outra pessoa. Talvez alguém que se interesse pela coleção de livros dela e tenha prazer em passar o tempo em sua companhia. Você não vai poder fazer nada quando ela decidir seguir em frente.

Ela é sempre sua última opção para ocasionais domingos à tarde. Mas um dia vai chegar alguém que se importa. Alguém que fará questão de reservar, já na segunda-feira de manhã, a companhia dela para o sábado seguinte. Ela vai se sentir valorizada. Neste dia, ela vai seguir em frente.

Um dia seu porto seguro será praia de outro amor. Ela vai mudar o tesouro de lugar e o mapa, que hoje você tem, já não levará a lugar nenhum. Alguém vai chegar com o mapa certo, encontrar e usufruir de toda a riqueza do amor que sempre esteve guardado à sua espera. Neste dia ela vai entregar tudo e se livrar da sua lembrança como a gente se livra de um peso. Como a gente se livra dos sapatos no fim de um dia cansativo. Esse dia vai chegar e, neste dia, ela vai seguir em frente.

Bethania Davies

Plano Bê: você não vai saber

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Posso te falar qualquer coisa já que quer saber de mim. Quer saber se eu tô bem? Eu sim.

Por aqui tudo continua do mesmo jeito, apesar de tão diferente. É difícil de entender mesmo. É que eu ainda sou a mesma que você deixou, tudo está no mesmo lugar, mas tem umas coisas que não vem ao caso.

Eu vou sobreviver e isso é tudo e não precisa vir aqui dizer que se preocupa comigo porque eu não quero nem te ver. Por que esta curiosidade sobre minha vida agora?

Tem coisas que você não precisa saber.

Tem coisas que você nunca vai saber. Por exemplo, que toda essa minha ira é medo de te ver. Você não precisa saber.

Eu tenho medo de não me segurar e dos meus olhos me denunciarem.

Nada disso você precisa saber. Que eu ainda me importo o suficiente, que eu guardei nossas fotos só para olhar teu sorriso escondida toda noite depois que a cidade vai dormir.

Eu ainda espero que as circunstâncias nos reaproximem e rezo todo dia pra isso acontecer, mas isso você nunca vai saber.

A minha vida meio do avesso, mas já fiz demais por nós dois, já não há muita coisa para dizer. Talvez eu te ame por mais dez anos, ou dez dias.

Mas isso você nunca vai saber.

Bethania Davies

Plano Bê: sozinha em casa

4782743725_28c2527d2f_b-1Quando chegou eu senti o maior medo. Um medo que nunca senti antes na vida. É que faz tanto tempo que um sorriso e uns olhos brilhantes, me remetendo a cilada que a gente torce pra cair, não faziam esse coração saltar no peito. Tinha esquecido como era.

Torci para ser um ataque cardíaco.

Era amor.

Eu entrei em pânico.

O pânico é o sentimento de quando você está perdendo o controle. Apaixonar-se é perder o controle. É como planejar a viagem de férias para praia e ir para a montanha, você nunca sabe o que vai acontecer. E eu, que sou tão calculista, odeio perder o controle.

O medo de perder o controle faz você se afastar de tudo, guardar seu coração em um baú com cadeado de aço e esconder o baú no sótão. É como se recolher em um mundo de incerteza. Achar que não merece amor.

O medo é ficar sozinho no seu próprio silêncio. Lá tem uma criança te olhando com os olhinhos arregalados. Esta criança é você. Você olha para ela e garante que sabe o que está fazendo, que vai dar tudo certo, quando na verdade não sabe nada e é provável que tudo dê errado.

É como ficar sozinho em casa, todo mundo sai e você se tranca bem para se proteger de qualquer interferência externa que possa perturbar seu ciclo vicioso de solidão. Mas pelo menos ali você tem tudo sob controle. Ali é tudo previsível, tudo seguro, tudo está sob seu domínio. O mundo, as pessoas e o amor são imprevisíveis. Lidar com imprevistos é coisa para os heróis das historinhas, coisa para corajosos.

Fui covarde, me escondi até do meu amor próprio. Eu estava sozinha em casa, bem salva e segura quando você chegou querendo me amar. Pensei: “mas quem ele acha que é para me amar desse jeito? Quanta petulância!”. Mesmo assim quis arriscar. Reuni um último raio de coragem e te convidei para entrar só pra ver até onde ia sua ousadia. Abri as portas.  Da casa, depois do baú de cadeado de aço, depois do coração dentro do baú de cadeado de aço.

Agora você também mora aqui. Somos nós dois em casa. Você chegou e me amou de um jeito que nem eu me amava. Você impregnou minha vida de amor.

Bethania Davies

Plano Bê: tô escrevendo um livro para você!

1019_hm_cogApesar de seu coração estar mais forte e menos bobo agora, ela não podia se enganar: esperava a semana toda por aquele momento mágico em que o telefone começava a tocar e podia ler, na tela acesa, o nome dele. Era ele! De novo! Não tinha mudado de ideia nem se encantado por uma garota qualquer e esquecido tudo o que prometera na semana passada.

Sim, porque se existia uma pessoa inconstante no mundo, essa pessoa era ele. Mudava de planos como quem mudava de roupas e, a cada novo plano que passava por aquela cabeça, ele ligava entusiasmado para contar, como se sua vida dependesse daquilo. E acreditava convictamente até a próxima aventura, até o próximo plano surgir excitando-o em um novo caminho.

Mas ela ficava feliz que sobre ela, ele ainda não havia mudado de planos. Há dez semanas o plano continuava o mesmo a respeito dos dois e ela podia sentir-se feliz, pois estava salva por mais uma semana, até o telefone tocar de novo (ou não) na semana que vem. Mas naquele momento o telefone tocando deixava claro que durante os últimos sete dias ele tinha, novamente, escolhido ela.

Respirava fundo para não deixar transparecer nenhum vestígio de nervosismo. Mal sabia ele que do lado de cá o sorriso era largo ao soar a palavra:

– Alô!

– E aí minha linda? – ela ouviu o sotaque sulista do outro lado da linha.

– Tudo bem?  – perguntou ela – E seu coração se enchia de luz como quando se acende uma lâmpada num quarto escuro e frio, iluminando e aquecendo tudo, num dia de um inverno qualquer.

– Tudo, mas por que demorou pra atender ao telefone, hein? Não sabe que quando eu ligo tem que atender correndo? – disse ele segurando o riso e fingindo uma voz irritada que a fazia, do lado de cá, imaginar aquela ruga linda se juntando no meio da testa de quando ele se fazia de bravo. – Quais as novidades? – perguntou.

– Tô escrevendo um livro para você! – ela disse entusiasmada e ele sorriu.

– Tá bom! Acredito. – respondeu em tom de desconfiança. Apesar de ter convivido tanto tempo com ela no passado, ele ainda não acreditava na sua propensão para as coisas poéticas. Mas tanto faz, ela já não queria provar nada para ele. Só escrevia porque ele lhe inspirava coisas bonitas e ela acreditava que inspiração não se deve desperdiçar.

Ele era engraçado e, às vezes, o fato de falar como se alguns telefonemas fossem algo sólido, como se estivessem de novo juntos, a deixava assustada. Como se ligações telefônicas em sextas-feiras à noite fossem a prova de amor que ela precisava.  Falava com ela como se nada tivesse mudado.

Ela sabia que devia se conter. Que não queria ser a figurinha repetida de alguém que se arrependeu e só voltou por medo de ficar sozinho. E que ele só fazia aquilo de “passar de vez em quando” porque tinha medo de que ela arrumasse alguém agora que ele tinha descoberto a mulher incrível que ela era.

Ela achava graça quando ele falava ignorando completamente os três anos e quatro mil quilômetros que os separavam naquele momento.  Ignorando que a juventude tinha passado e tinham perdido tempo e mudado. Fazendo de conta que a maturidade faria dar certo desta vez.

Mas ela sabia que não é tão fácil assim e ele fingia não saber. Ele até gostava dela, mas a vida é complicada. Ela até que gostava dele, mas ele era complicado.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: obrigada por mudar

aObrigada por ter mudado tanto. Por prometer e não cumprir, por me fazer sonhar uma vida ao seu lado e mudar todos os meus sonhos em tão pouco tempo. Foi sua mudança que me fez crescer e ver que eu merecia mesmo amor, pois colocou luz em um coração tão escuro feito o meu.

Obrigada por mudar de ideia em relação a nós. Obrigada por prometer me levar com você e ter me deixado aqui.  Escrevendo para você e te olhando de longe pude ver o que eu não notava com você perto. Você é louco e me prometia equilíbrio, então, obrigada por mudar meu entendimento sobre lucidez.

Obrigada por mentir. Por me deixar esperando. Por prometer sentimentos eternos e não cumprir. Esta lição foi importante para eu aprender de uma vez por todas que nada é para sempre. Que nada é eterno.

Obrigada por ter prometido não me cobrar nada, por ter prometido não me pedir para mudar e depois me ensinar a ser uma pessoa melhor e mais bem humorada.

Obrigada por ter me amado, mesmo que por pouco tempo. Por ter me feito sorrir, me feito feliz, mas acima de tudo, obrigada por ter me feito chorar.

Obrigada por mudar de telefone. Por não me atender.  Obrigada por mudar de cidade. Por ir embora. Você me ensinou que ninguém pertence a ninguém e que a liberdade é o melhor presente para quem se ama.

Obrigada por ter sido verdadeiro, por ter sido inteiro. Por deixar saudades. Mas acima de tudo, obrigada por prometer nunca mais me procurar, por prometer sumir e depois mudar de ideia e me ligar todos os anos no meu aniversário. Obrigada por prometer nunca mais voltar e mudar de ideia depois de tanto tempo.

Obrigada por mudar minha vida me fazendo enxergar que nada era o conto de fadas que eu imaginava. Obrigada por mudar tudo para ficar ao meu lado e depois ter dado tudo errado. Obrigada por mudar de ideia sobre nós e acima de tudo obrigada por ter mudado tanto comigo.

Obrigada por me prometer uma primavera e ter me dado um inverno sem fim. O frio e a solidão são ótimos companheiros e eu tive tempo para colocar algumas certezas, sobre nós, no lugar. No fim concluí que ninguém vive só de verão e dias de sol, todo mundo precisa de um inverno para organizar os livros na prateleira empoeirada. Todo mundo precisa de solidão em paz.

Hoje sou metade de toda mudança que você fez, porque mudamos juntos e depois você foi embora, mas mesmo assim, obrigada! Sem você eu estaria no mesmo lugar e lá naquele lugar nunca haveria um “eu e você”. Então obrigada por preparar meu coração para te receber. Obrigada por ter me ensinado a mudar.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: É só olhar e ver…

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…que todo o amor dele é dela, que ele foi feito pra ela e vice e versa. Os dois são sempre melhores juntos, e cada passo dele é dela. Vejo neles que amar é bem mais do que estar juntos, é ser juntos, dividir uma causa em comum ou talvez incomum, a de olhar o mundo pelos mesmos olhos, os olhos do amor. O mesmo amor de seus ancestrais, o mesmo amor que move os ventos que atiçam as fogueiras, o mesmo amor dos olhos de cigana oblíqua, porque o amor sempre foi o mesmo. Mas esse mesmo amor renasce e reinventa uma nova forma de ser a cada dia naqueles dois. Coisa bonita isso!  Até as pupilas do universo, que já viram todo tipo de amor desde o início dos tempos, se alegra ao vê-los e sabe que todo o amor dele é dela. Que quando ela sorri sozinha na rua é porque pensou nele.

Os abraços são mais abraços e os beijos são mais beijos desde que eles se encontraram e os telefones, antes mudos, já não vêem sentido pra não tocar falando de amor. Ela já não caminha sozinha e tudo que sonhou pra si, ele também já havia desejado muito antes. E antes do amor, eles são, sobretudo, dois amigos que encontraram no outro, um lugar pra ancorar e se acalmar das tempestades. São felizes por terem um ao outro. Os corações tem sempre uma tarefa ao vir ao mundo: encontrar algo que os faça vibrar, e eles se encontraram. Cumpriram a tarefa de encontrar a parte que faz o amor transbordar.

Quem olha despretensioso para os dois, não imagina a sorte que tem de ver esse amor que, de tão deslumbrante, os bancos das praças esperam ansiosos pelo dia em que poderão vê-lo de perto. E as flores dos muros sonham um dia servir de presente dele pra ela só pra contemplar de perto a face do amor. Ao sentir seus pés na areia molhada até o mar se agita e avança numa tentativa de alcançá-los pra tocar o amor. O universo inteiro ouviu falar e quer ver esse amor: o amor dele que é todo pra ela. É lindo, é só olhar e ver.

Bethania Davies

Foto: reprodução.