Plano Bê: cheiro de papel

tumblr_nhx2omqbus1slfc9go1_1280Hoje eu abri um caderno vazio. Ele não era como os outros que eu tenho. Ele não tinha nenhum risco denunciando minha mão indecisa, nenhuma palavra bonita denunciando qualquer paixão remanescente, nenhuma folha amassada denunciando qualquer noite mal dormida. Ele era vazio. Pronto pra eu começar de novo, pronto pra receber minha alma. Uma alma tão valiosa em folhas presas por uma mola de metal barato. É, eu não julgo um livro pela capa porque conheço o meu livro e sei o que tem dentro dele.

Passei as folhas em branco pelos dedos sentindo o cheiro do papel onde tantas possibilidades vão se tornar realidade. Pensei em todas as palavras que vou escrever e as que vou rabiscar por cima com a caneta quando minha mão for mais rápida que meu cérebro e escrever coisas que não quero ler. Que não quero que façam parte de mim. É, eu ando tentando mandar nos meus pensamentos antes que eles me enlouqueçam.

Pensei no quanto esse caderno vai ser importante e precioso já que eu não carrego minha alma comigo, coloco ela ali. E volto sempre para ler de novo e acrescentar coisas que ficaram para trás. Uma estratégia para crescer sem se esquecer do plano original. É, eu ando tentando ser uma grande mulher.

Ali eu vou guardar os meus pedaços, fragmentos de um ser humano em construção. Um quebra cabeças que só eu sei montar. Com uma caligrafia terrível que só eu consigo decifrar. Faço de propósito caso alguém tenha a ousadia de querer descobrir quem eu sou e aonde está meu tesouro. É, eu ando cuidando melhor do meu coração.

Se eu comprei este caderno é porque ainda não escrevi tudo que precisava. Sinto que ainda tem muitos pedaços de alma esperando para serem colocados no papel. É que eu ando tentando ser melhor, sabe? Crescer, amadurecer, fazer a diferença. Não sei se vai dar certo, mas é a primeira vez que comecei um caderno pela primeira folha e isso já é um bom começo!

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Plano Bê: eu rasguei!

214407Essa semana eu resolvi remexer umas caixas de cadernos antigas. É eu guardo. Tinha muita coisa sua lá. Esses cadernos são de quando eu tinha quinze anos e usava um caderno de anotações por ano. Presumo que os cadernos dessa década serão mais difíceis de armazenar já que agora eu uso três, quatro, e até cinco cadernos de anotações por vez, mas não falo mais sobre você.

Mas, enfim, eu guardo, pois gosto de ler depois de um tempo e perceber o que mudou.  Encontrei páginas em que teu nome, cheio de arabescos e corações, tinha rabiscos de um pulso irado por cima. Encontrei páginas que não sei o que tinham nelas, pois só restou a parte da perfuração. O resto eu rasguei. Encontrei um cartão em forma de coração, rasgado. Aliás, bem rasgado. Tive maior trabalho pra reconstruí-lo e descobrir o que tanto tinha nele que me fez reduzi-lo a pedacinhos, e para minha surpresa, não era um cartão seu. Era um cartão meu para você. Veja só! Cheio de palavras bonitas e dessas piras que eu costumo escrever, mas eu não mandei. Não me lembro do por quê, mas devia estar com raiva, devo ter tido um lapso de consciência (graças a Deus!) antes de enviar, então eu rasguei e guardei.

Guardei para me lembrar do quanto a gente ama errado nessa vida. Do quanto falhamos em nos divertir no caminho e nos preocupamos apenas com a chegada. Achamos que os fins justificam os meios. Alguns até pode ser, mas nem todos os fins, não o nosso fim. O nosso fim não justificou nada, e coisas que não se justificam são rapidamente esquecidas. Quando esquecemos podemos rapidamente voltar a investir no mesmo erro. Por isso eu guardei tudo, mesmo rasgado, mesmo rabiscado. Para me lembrar de nunca mais amar errado, nem ter que rasgar outro cartão.

Bethania Davies

Foto: reprodução.