Plano Bê: tô escrevendo um livro para você!

1019_hm_cogApesar de seu coração estar mais forte e menos bobo agora, ela não podia se enganar: esperava a semana toda por aquele momento mágico em que o telefone começava a tocar e podia ler, na tela acesa, o nome dele. Era ele! De novo! Não tinha mudado de ideia nem se encantado por uma garota qualquer e esquecido tudo o que prometera na semana passada.

Sim, porque se existia uma pessoa inconstante no mundo, essa pessoa era ele. Mudava de planos como quem mudava de roupas e, a cada novo plano que passava por aquela cabeça, ele ligava entusiasmado para contar, como se sua vida dependesse daquilo. E acreditava convictamente até a próxima aventura, até o próximo plano surgir excitando-o em um novo caminho.

Mas ela ficava feliz que sobre ela, ele ainda não havia mudado de planos. Há dez semanas o plano continuava o mesmo a respeito dos dois e ela podia sentir-se feliz, pois estava salva por mais uma semana, até o telefone tocar de novo (ou não) na semana que vem. Mas naquele momento o telefone tocando deixava claro que durante os últimos sete dias ele tinha, novamente, escolhido ela.

Respirava fundo para não deixar transparecer nenhum vestígio de nervosismo. Mal sabia ele que do lado de cá o sorriso era largo ao soar a palavra:

– Alô!

– E aí minha linda? – ela ouviu o sotaque sulista do outro lado da linha.

– Tudo bem?  – perguntou ela – E seu coração se enchia de luz como quando se acende uma lâmpada num quarto escuro e frio, iluminando e aquecendo tudo, num dia de um inverno qualquer.

– Tudo, mas por que demorou pra atender ao telefone, hein? Não sabe que quando eu ligo tem que atender correndo? – disse ele segurando o riso e fingindo uma voz irritada que a fazia, do lado de cá, imaginar aquela ruga linda se juntando no meio da testa de quando ele se fazia de bravo. – Quais as novidades? – perguntou.

– Tô escrevendo um livro para você! – ela disse entusiasmada e ele sorriu.

– Tá bom! Acredito. – respondeu em tom de desconfiança. Apesar de ter convivido tanto tempo com ela no passado, ele ainda não acreditava na sua propensão para as coisas poéticas. Mas tanto faz, ela já não queria provar nada para ele. Só escrevia porque ele lhe inspirava coisas bonitas e ela acreditava que inspiração não se deve desperdiçar.

Ele era engraçado e, às vezes, o fato de falar como se alguns telefonemas fossem algo sólido, como se estivessem de novo juntos, a deixava assustada. Como se ligações telefônicas em sextas-feiras à noite fossem a prova de amor que ela precisava.  Falava com ela como se nada tivesse mudado.

Ela sabia que devia se conter. Que não queria ser a figurinha repetida de alguém que se arrependeu e só voltou por medo de ficar sozinho. E que ele só fazia aquilo de “passar de vez em quando” porque tinha medo de que ela arrumasse alguém agora que ele tinha descoberto a mulher incrível que ela era.

Ela achava graça quando ele falava ignorando completamente os três anos e quatro mil quilômetros que os separavam naquele momento.  Ignorando que a juventude tinha passado e tinham perdido tempo e mudado. Fazendo de conta que a maturidade faria dar certo desta vez.

Mas ela sabia que não é tão fácil assim e ele fingia não saber. Ele até gostava dela, mas a vida é complicada. Ela até que gostava dele, mas ele era complicado.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s