Plano Bê: vigésima terceira “última carta”

girl writes a letter

Eu sei que já faz muito tempo e que todas as palavras, sobre nosso fim, já foram ditas. Sei também que, finalmente, já não dói mais para nenhum de nós dois. Mas tive que mexer neste baú interminável de frações de tempo onde nossa história está guardada porque um detalhe me chamou a atenção.

Estou vendo você repetir nossa história com ela. Você tem que entender que é estranho, senão hilário, para mim ver que você a levou nos lugares que a gente foi, em cada lugar, um por um, cidade por cidade. Não sei explicar qual foi a sensação que tive. Talvez saber que você ainda me considera o suficiente para lembrar, ou que não considera o bastante para se importar de levá-la nos lugares que me levou.

Isso mexeu comigo. Não sei como me comportar e não há como ficar alheia, pois até suas fotos parece que são iguais e nos mesmos lugares. Com isso muitas outras dúvidas vieram. Será que você muda a voz e fala daquele jeito dengoso, como falava comigo, com ela também? Será que faz as mesmas brincadeiras? Como será que é a vida de vocês? Por que você está fazendo ela parecer com a nossa antiga vida?

Eu achei que o que foi nosso seria só nosso para sempre. Que você, assim como eu fiz, deixaria tudo intacto em algum lugar do tempo, pois mesmo que não seja uma realidade do presente, um dia foi real e foi bom e o que é bom a gente guarda com carinho para ninguém estragar.

Sei que estou me traindo friamente agora. Não sei o que estou escrevendo, nem falando, nem pensado. Mas eu queria que você não me esquecesse de vez, que de vez enquanto – nem precisa ser uma vez por mês, pode ser semestral – que você lembrasse de mim, das coisas que foram nossas e não deixasse ninguém tocá-las. Que elas fossem só nossas, porque afinal, mesmo que hoje nossos corações pertençam à outras pessoas, um dia eu amei muito você.

Me desculpe. Eu sei que não posso ser tão egoísta. Ela é linda, você é um bom homem e eu nunca poderia te fazer feliz. Espero que ela realmente esteja fazendo muito por você. Te fazendo feliz. Feliz o quanto eu não conseguiria, jamais, fazer.

Me convenci de que se eu não podia ser a pessoa que você precisava, alguém poderia fazer melhor. E ela está fazendo um ótimo trabalho, sei que você está em boas mãos. Seja feliz, ela é boa nisso e você nem vai sentir minha falta.

Do meu jeito louco eu acho que gosto de você, ou pelo menos respeito você e, para mim, o que foi nosso ainda é nosso porque não há como apagar alguém da sua história. Não há como anular três anos de uma vida, fingir que não existiram.

Só queria que você soubesse que você é minha história, e nem que quisesse eu te apagaria. Saiba que quero que você seja feliz, muito feliz.

Já escrevi vinte e duas cartas que nunca enviei. E não tenho certeza sobre quantas mais ainda vou escrever prometendo ser a última. Mas, para não perder o costume, vou prometer de novo que, agora sim, esta é a última carta – das muitas que você nunca receberá – que escrevo para você.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

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