Plano Bê: árvores são verdes

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Quando eu tinha seis anos tirei zero em uma prova do primário porque pintei as folhas de uma árvore todas de preto. Tudo bem, não foi só a árvore a responsável pela nota, também pintei a bandeira com as cores invertidas. Então cresci ouvindo da minha mãe a mesma história: que a professora, no seu compromisso com a educação, avisou aos pais sobre o comportamento divergente da garotinha. “A bandeira é normal uma criança confundir”, dizia a professora, “o problema era pintar uma árvore de preto!”. Porque, no mundo, todas as árvores são da mesma cor e eu não havia me dado conta. E se eu resolvi pintar uma de preto é porque algum problema eu tinha.

Na época acho que nem se falava em daltonismo e, durante uns bons anos, eu me senti uma idiota por isso, mas depois de um tempo eu descobri que eu não tinha nenhum problema com o mundo. Não era daltonismo. Não era déficit de atenção, muito menos necessidade dela, pois eu fui a criança mais amada do mundo graças a Deus e aos meus pais. Não era vontade de aparecer. Não era nada de problemas. Era só minha estranha mania de querer consertar  o mundo se manifestando desde cedo. Era uma tentativa inconsciente de provar novos sabores, tentar novos caminhos.

Eu me lembro de estar pintando aquela árvore, e lembro que estava plenamente consciente de que árvores são verdes, mas eu quis imaginar um mundo onde elas são livres para escolher de qual cor querem ser. Pois elas são verdes desde sempre sem se questionar, como algumas pessoas, atadas a um convencionalismo que ninguém sabe quem inventou. E naquele momento eu senti que não precisa ser sempre assim, sempre do mesmo jeito. Que o mundo e as verdades podem – e devem – ser questionados.

Depois de adulta me perdoei ao perceber que aquele foi um dos melhores e mais importantes momentos da formação na minha personalidade tão desinquieta. Pois aprendi que não é porque já estava lá quando eu nasci que eu preciso continuar fazendo a mesma coisa, sendo a mesma pessoa e indo pelo mesmo caminho batido e repetitivo que todo mundo sempre foi.

Desde então eu ando por aí pintando as minhas árvores de preto, azul, vermelho, rosa… Posso parecer louca, mas eu sei exatamente pra onde estou indo. Existem milhões de maneiras de fazer diferente, você só precisa pensar um jeito. Existem centenas de caminhos neste mundo, por isso espero que a partir de hoje você também consiga ter coragem de dar novas cores para as suas árvores.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

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