Plano Bê: o que sei de você

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O que sei de você é que anda por aí, vivendo, trabalhando e estudando para passar naquele concurso público. O que sei de você é que viajou com os amigos para curtir as férias e que a sua tatuagem voltou meio desbotada pela intensidade do verão e de tudo que viveu, e talvez vá retocá-la daqui uns dias. O que sei de você é que o mar, o calor e um tempo fora fizeram um bem danado para você. O que sei de você é que se mudou para um apartamento maior e trocou de emprego. O que sei de você é que ainda gosta de livros de ficção e que a coleção do George R. R. Martin ainda é a sua preferida. O que sei de você é que ainda usa e remédios para dormir e não perdeu o costume de levantar de madrugada para comer. O que sei de você é que quando o inverno chegar pretende instalar um aquecedor porque o novo apartamento é grade e frio. O que sei de você é o mesmo que todos os seus amigos sabem. “Amigos” tá aí a única palavra que eu achei que nunca usaria para me referir a você. Nos happy hours que a gente continua fazendo, mesmo sem você, eu sempre ouço entre os amigos o seu nome, fico sabendo dos seus planos e me espanto ao perceber que não me importo por eu não fazer mais parte deles.

 Parece que é outra vida agora. Te olhar de perto ou de longe, te ver sorrir e não me desconcertar. Te ver passar na rua e ser só um cara que passou, indo pra algum lugar que não me interessa.  Ouvir seu nome e ser só um nome, te olhar em paz, sem culpa, sem coração acelerado, sem mágoa, sem nem um resto de vontade, nem um pouco de saudade, sem nada. Absolutamente nada. Saber que tudo que sei sobre você hoje se limita a informações aleatórias.

O que sei de você é que continua lindo, mas isso já não importa mais, você pode ser lindo aqui ou em Marte, tanto faz, vai ser só mais um cara lindo no mundo. Sem saber o que perdeu. Perdemos. Mas isso também já não importa mais. De verdade mesmo.

Só depois que passa é que a gente percebe os motivos que o mundo tinha para não deixar certas pessoas juntas. Nós fomos uma dessas histórias onde os caminhos se cruzam e vão juntos por um tempo, mas logo se separam para ir a direções opostas e isso é tão clichê que me dá náuseas, mas o amor é clichê. Histórias de amor são todas clichês – principalmente  quando tem fim.

No fim acho que sei mais sobre você do que sobre mim. Ou não sei quase nada, é relativo. Mas ainda sei o suficiente para esta lista de “coisas que sei sobre você” vir me atormentar e me fazer te lembrar. Tudo bem, nós dois sabemos que isso não é nenhuma recaída e que algumas coisas aprendemos por repetição e, quando essa história ainda doía, eu nunca quis repeti-la no meu pensamento. Hoje, só pra passar de vez uma borracha nisso, me deu vontade de te lembrar sem rancor, de te escrever, e comecei por esta lista porque sei que em breve não saberei mais nada de você. Sem dor, sem rancor. Acho que comecei a te esquecer.

Bethania Davies

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