Plano Bê: uma historinha

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Os dois tinham mais em comum do que imaginavam, mas nunca haviam ficado tempo suficiente na presença um do outro para perceber. A indiferença era o único sentimento que existia ali e a relação não ia além de meia dúzia de palavras trocadas ao acaso como: “calor, né?” ou “tá gostando da festa?”. Conversas aleatórias sem interesse algum. Como duas linhas paralelas suas vidas iam normalmente e se viam de vez em quando por causa dos amigos em comum, mas ainda assim, ela o achava esnobe e a recíproca era verdadeira.

Ela tinha uma personalidade leve e sonhadora, tinha poucos e bons amigos, vivia com os pensamentos no mundo da lua, acreditava no amor, praticava meditação, tinha um cachorro, lia Paulo Coelho e se interessava por Ciência Noética. Ele era seguro e brincalhão, tinha muitos amigos, lia Game Of Thrones, gostava de matemática e entendia de moda mais do que ela. Frequentemente, quando se encontravam, ele se pegava observando que ela não tinha dons para combinar as peças do próprio guarda-roupa. Porém, alguma coisa no jeito dela não deixava a suas gafes com a moda serem um detalhe notável, alguma coisa não deixava a roupa descombinada aparecer mais do que seu sorriso. E foi por isso que se aproximaram.

Certo dia os dois beberam demais e ele teve coragem de dizer que a saia dela não combinava nada com a blusa, mas, que mesmo assim. Ela estava muito bonita porque tinha uma postura segura, porque ela se vestia para si, dançava para si e não tentava agradar ninguém e isso é que era bonito. E ela olhou, agradeceu e dali a pouco estava beijando o menino esnobe, talvez porque a bebida tinha feito mais efeito do que normalmente fazia. Talvez porque as luzes coloridas estavam embaralhando os pensamentos e aumentando a vontade de fechar os olhos e sentir uma boca qualquer. Talvez porque havia um grande desejo oculto por trás de tanta indiferença de um para com o outro. Talvez, talvez, talvez…

Quando a ressaca passou ela acordou pensando: “put’s beijei aquele chato, mas ainda bem que ele não pegou nem meu telefone”. Ele acordou e não se lembrava muito bem da noite passada, só sabia que tinha passado do limite, abriu mão do seu orgulho e pediu um beijo àquela doida e, para sua surpresa, ela havia consentido. Dois dias depois, quando ela ainda se torturava mentalmente pensando em como foi deixar isso acontecer, foi interrompida pelo toque do celular. Conversaram, cederam ao orgulho deixando pairar no ar algo que não tinha nome, mas sabiam que era bom sentir aquilo. As conversas que eram vagas começaram a fazer sentido quando perceberam que tinham coisas em comum, e os beijos que eram vazios ficaram mais doces, a vontade de abraçar começou a ser mais forte do que a indiferença e a companhia do outro passou a ser indispensável.

A história dos dois é como tantas por aí, desencontradas, perdidas no meio do mundo, mas um dia tudo faz sentido e todas as metades se encontram. Mesmo que pareça impossível encaixar-se, um dia elas se encaixam. Porque o sentido da vida é encontrar quem nos transborde.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

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