Plano Bê: desencontros

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Quanto mais ele a ouvia falar, mais percebia que ela era realmente a mulher certa. Cheia de luz, alegria, engraçada, decidida e corajosa. E quanto mais ela o ouvia, mais percebia o quanto ele era o cara errado. Ele se apaixonou por essa personalidade inquietante, mas ela sabia que o depois reservava conflitos amargos, ele pediria para que ela mudasse e ninguém até hoje tinha conseguido isso: mudá-la, apagá-la, sufocá-la. E só ela sabia por quantos finais já havia passado por causa disso, mas sobreviveu, porque foi feita pra se levantar. No entanto tinha ficado especialista em identificar homens do tipo dele. Ela os reconhecia com apenas 15 minutos de conversa, e depois que aprendeu a dizer não, nunca mais perdeu tempo tentando unir água e óleo. E nossa, quanto tempo ela já tinha perdido! Mas ela sabia que a vida tem dessas coisas mesmo. Quem quer cumprir seu caminho precisa renunciar algumas coisas, desenvolver capacidade de discernimento e ser bem resolvido, ela tinha um destino a cumprir, que não era o que ele estava propondo. Ela também sabia que o mundo costuma ser bem duro com quem renuncia um sonho e, viver, ao invés de ser uma festa como aquelas que ela fazia todos os dias, se tornaria uma tarefa árdua caso desistisse.

– Porque não? Acho que daríamos um casal perfeito! Combinamos em várias coisas – disse.

Ela só riu e olhou para algum lugar no horizonte pensando em nada mais além do caminho que tinha que completar. No destino que se propôs a cumprir e no quanto as pessoas fingem não ver detalhes tão óbvios. Eles não tinham nada que pudesse ser um vínculo. Mas naquele verão ele tinha resolvido arrumar uma namorada e, naquele momento, não via mais nada ao redor. Ele sequer a ouviu dizer que não tinha vontade de se casar, nem talento pra ser mãe. Que ela gostava do mundo, que queria ser livre.  Ele ignorou histórias, conceitos, sonhos, caminhos. Tudo em nome de ter alguém do lado por medo da solidão. Vale a pena? Ela se perguntou. A resposta veio como um raio: não, não vale! Ela não tinha nascido pra responder sim e não, pra obedecer a regras, pra ser igual a todo mundo.

– Combinar em “várias coisas” não é meu critério de escolha, nem uma desculpa que me fará parar. Você vai encontrar alguém – respondeu.

E saiu sorrindo, não dele, nem por ele, aquela não tinha sido uma conversa sobre ele e as vontades dele. Ela sorria por si mesma sentindo um peso sendo retirado das suas costas e tendo certeza de que o mundo, em forma de agradecimento, costuma ser generoso e benevolente com todos aqueles que não desistem e ainda lutam todos os dias debaixo do mesmo sol.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

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