Plano Bê: imperfeitos

plano be

Eu fechei a porta devagar não quis pensar no que deixava, pra não ter vontade de voltar. O click da maçaneta foi o barulho que eu precisava pra abrir os olhos. Saí porque minha razão pediu, não meu coração. Saí sem querer sair, fugi querendo me amarrar pra sempre ali. Mas ficar significaria ignorar todos os sinais de que já não sabíamos mais como fugir do mar de incertezas que criamos, não sabíamos como voltar ao porto. Mesmo assim temos boas recordações, tive vontade de gritar e jogar na sua cara que nós não conseguimos por medo, mas em nome de tudo aquilo de bom que um dia existiu ali, foi que eu saí em paz. Fui caminhando e imaginando seus gestos em câmera lenta presos no tempo. As paredes agora tão quietas guardam ainda o eco da nossa voz.  As cortinas agora tão beges tem nosso cheiro impregnado. Lembrei-me do seu banho matinal e até da careta do bocejo que você fazia franzindo a testa. Cada coisa que foi nossa ali permanecerá intacta. Só não o amor. O amor que perdemos em algum lugar, deixamos escapar entre um bom dia e outro. Entre um café silencioso e um olhar vazio enquanto minha alma gritava pra você lutar por mim, por nós. Pra não me deixar ir.

Eu saí sem olhar pra trás, não quis ver tuas camisas no varal ao sol de setembro, e as flores que o ipê deixava cair em nosso quintal onde outrora havíamos sido felizes. Saí sem me culpar, sentir algum tipo de culpa seria trair minha decisão e querer reviver, mas reviver já não era possível pra nós. Tão clichê dizer isso, mas algumas coisas, depois de quebradas, não voltam nunca ao normal. E talvez normal nunca tenha sido a palavra certa pra nós.

Eu sei que você odeia bagunça, mas sai deixando tudo em perfeita desordem, que é mais ou menos como está meu peito agora e preciso que você saiba disso. Nossa indiferença ocupou todos os espaços e por isso eu saí. Lá naquela casa todos os nossos dias seriam iguais. Você não tentou, eu não tentei e nos perdemos pra sempre. Somos imperfeitos no amor, e não conseguimos lutar contra essa pequena adversidade. Nos perdemos  para nosso medo. Nos perdemos para nossa falta de bravura para encarar o amor ou qualquer coisa parecida com amor que te ensina a fazer planos ao lado de alguém. Nos perdemos para nós mesmo. Mas isso já não importa. Levo comigo a lição de que a palavra fundamental no amor é coragem. Coragem de tentar, coragem de ficar, coragem de amar. Isso é a chave e enquanto não recuperarmos isso, a porta que fechei permanecerá trancada.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

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