Plano Bê: amor em cachorrês

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Na minha vida poucas são as coisas que posso chamar de minhas. Mas considero três coisas muito importantes e eu gostaria de citar. Das três, duas tem ‘preço’ e uma tem ‘valor’: Minha câmera, meu violão e meu cachorro. Meu cachorro, ou melhor, cachorra. Um dos sentimentos mais puros que já encontrei. Às vezes me pergunto como de um coraçãozinho tão pequeno pode vir tanto amor. Eu e ela estamos há quase uma década juntas, falando nisso, seus cabelos agora já estão começando a branquear e os dentes já não são fortes o suficiente como quando ela grudava na manga do meu moletom. Eu sei que a hora está chegando e preciso que ela saiba que estarei com ela até o fim, e que mesmo que o seu fim signifique o término de toda minha alegria, não significará nunca o final do meu amor. Eu queria que ela pudesse saber o quanto eu a amo, mas eu não falo cachorrês, então eu só amo e sei que ela sente, pois devolve sempre em proporção elevada à décima potência. Por mais que meu amor seja grande, não supera nunca o tamanho do amor dela.

Eu gosto quando ela vem me receber na porta com olhos de saudades e resmungando algo que deve ser “nunca mais faça essa palhaçada de me deixar aqui sozinha!”. Eu adoro quando ela esquece a bolinha sem graça pra brincar com os fios do meu cabelo. Eu gosto quando ela vem esconder o focinho na palma da minha mão ou na curva do meu braço. Eu adoro quando ela se move da posição “deitada de frente” para a posição “deitada de lado” na minha cama, isso mostra o tamanho da confiança que tem em mim, pois é uma posição vulnerável pra um ataque surpresa de cócegas. Eu adoro vê-la correndo com o vento balançando seus pelos no sol de domingo. Domingo é o seu dia preferido porque a única coisa que fazemos é brincar, sem essa de hora marcada pra sair pro trabalho.

Eu senti que ela havia me escolhido quando, certo dia, ela chegou com cautela, olhou meu rosto e se aproximou pra sentir o cheiro daquelas gotas quentes que escorriam dos meus olhos. Não podendo secá-las, pois eram muitas, ela me pediu colo, me abraçou com o olhar e deitou a cabeça no meu ombro. Ali nascia o amor. Como retribuição, prometi nunca abandoná-la. Sou eu que ouço seu chamado em noites de relâmpagos e trovões e finjo que esqueci a porta do quarto aberta pra que ela venha se esconder no meu abraço. É ela que percebe o perigo muito antes de mim e se posiciona à minha frente com postura de super-heroína pra mostrar que está ali pra me defender. Tudo bem que ela só tem cinco quilos e 15 centímetros de altura. O que importa é o seu coração sempre valente. Mesmo que sempre acabe com ela correndo pro meu colo, e eu tendo que afugentar os desafetos que ela arruma passeando na vizinhança. Me acabo em gargalhadas quando ela faz isso. Eu adoro vê-la se espreguiçar e odeio quando ela grita na hora do banho, ela odeia banho.

Temos marcas de uma na outra que vamos levar até morrermos. A dela eu fiz quando tentei colocar um lacinho naquela orelha. Ela deve ter pensado algo do tipo “não uso essas coisas de mulherzinha” e puxou a cabeça com força arrancando um círculo de pelos que nunca mais nasceram. A minha ela fez quando eu peguei no seu rabo sem pedir permissão, ela se assustou e revidou mordendo meu pulso, o que rompeu um filete de ligamento do dedão que nunca mais se recuperou. Tudo bem, invadimos o espaço uma da outra e nos machucamos, agora eu e ela sabemos que toda relação de amor deixa marcas. E tão grande quanto meu pesar ao machucá-la foi a dela ao me ferir também, mas, isso não importa, já nos perdoamos. Nós nos escolhemos e as marcas são nosso pacto, nossa aliança. Por toda a vida quando meu dedão formigar e quando olhar sua orelha sem pelos, me lembrarei daquele dia. A memória do ser humano é uma benção e uma maldição. Maldição porque vou lembrar pra sempre quando ela, no dia seguinte, já havia esquecido. E benção porque depois que ela se for isso vai fazer com que eu guarde pra sempre uma lembrança da minha Rubi. Dos olhinhos transbordando amor ao me olhar e do coração batendo acelerado de felicidade. E se o preço que tenho que pagar pra me lembrar pra sempre da nossa amizade é um dedão meio aleijado pra sempre, que seja! Por ela vale a pena, por mim, tudo bem!

Bethania Davies

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Foto: reprodução.

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