Plano Bê: segredo nos olhos

large

Era um dia comum daqueles que você acorda sem expectativas. Peguei o ônibus para o trabalho ouvindo minha música e nada me tiraria daquele estado de compensação. Gosto de pensar na minha vida, e naquele dia lembrei-me de tudo que fiz na infância, na adolescência e o que faço agora. Pensei “puts, eu já errei tanto e ainda erro muito”. Eu merecia aquela paz, merecia parar tudo pra pensar, busquei justificar a minha inércia no fato de que havia transformado minha vida em uma bola de neve nos últimos meses. Além da faculdade, dos projetos, do trabalho, da coluna semanal, do livro, da música, dos ensaios, da aula de inglês e da aula de violão, eu era uma pessoa com vida social, amigos presentes e estava à procura de alguém para dividir tudo aquilo que havia me tornado. Já podia me orgulhar dos meus feitos, e eu havia mesmo exagerado tentando abraçar o mundo. Merecia tirar uns dias pra ficar mal humorada e não fazer mais nada.

Ouvi um piiiiiiiiiiiiiiiii, era minha parada. Quando levantei, querendo sair o mais rápido possível dali pra me livrar da tia que conversava ao lado o tempo todo, percebi dois olhinhos me olhando. Era um olhar fixo, limpo, despido de qualquer sentença. Parecia um rio onde a gente mergulha pra não ouvir os barulhos da alma. Silenciei meu interior, observei aquele momento em câmera lenta e decidi continuar olhando. Optei por não sorrir. Aqueles olhos aparentavam ter uns onze meses, no máximo, e uma vida inteira pela frente, pensei. Sonhos, erros, acertos, ilusões, tanta coisa vai acontecer… Na hora, tentei lembrar, mas não consegui encontrar na minha mente embaralhada lembrança de alguma vez ter olhado pra alguém assim, afinal também tive onze meses e ouvi dizer que sempre restam alguns flashes em nossa memória que podem influenciar ânimos e a personalidade na vida adulta.  Conclui que talvez nesta idade eu tenha olhado pra alguém bem cético e mal humorado, talvez não, com certeza! Isso prova porque adoro tanto colocar meus óculos escuros, hibernar no meu mau humor e fingir que não sou desse mundo.

Todas as sensações que aquelas duas bolinhas incrivelmente pretas iam me causando me acalmavam e inquietavam ao mesmo tempo.  Iam me decifrando e eu ia me sentindo despida, invadida, revirada do avesso a cada novo pensamento. Em pouco tempo eu consegui enxergar tudo muito claro. Se Deus ainda manda esses anjinhos para o mundo numa tentativa de nos fazer pensar nossa existência, então quando eles colocam as pupilas sobre nós é porque a vida não para aí.  A vida pede ação sempre, movimento sempre, força de vontade sempre. E aquela criança precisa ter um mundo girando quando começar a viver. Agora enquanto ele só observa tudo pelas duas janelinhas encantadas no colo da mãe, sou eu a responsável por fazer o mundo acontecer. Eu!

Imaginei que não tenho o direito de parar pra descansar no meio do caminho, não tenho o direito de deixar de herança uma vida estática e concordei que é sempre assim mesmo, tipo bola de neve, tudo junto e misturado acontecendo ao mesmo tempo.  Isso tudo passou em mim como um filme compassado e do lado de fora, no mundo, passou-se só dez segundos. Sai do transe como quem é sugado pra fora de um tornado e sorri, sorri bem bonito mesmo. Se for pra ele se lembrar de algo quando crescer, e isso influenciar sua vida, que seja de alguém sorrindo. Desci do ônibus e fui correndo viver.

Bethania Davies

Foto: reprodução.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s